Esperas…
de Florbela EspancaSou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!
Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
Quando o Outono leva a folha rendilhada,
O vestido real da branda Primavera,
O rio abre-lhe os braços e leva amortalhada
A pequenina folha, essa ideal quimera!
Que diga o mundo e a gente o que quiser!
- O que é que isso me faz?… o que me importa?…
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A incostância desfaz.
Um dia, fez Deuz uns olhos
Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.