Inteiramente Louco
de Vicente de CarvalhoDizeis do meu amor que é coisa absurda,
E ele, teimando, faz ouvido mouco;
Nem há razão que o desvaneça ou aturda.
Dizeis do meu amor que é coisa absurda,
E ele, teimando, faz ouvido mouco;
Nem há razão que o desvaneça ou aturda.
Quero que meu amor se te apresente
- Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: – risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.
Ao meu amor desamparado e triste
Toda a esperança de alcançar-vos nego.
Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste…
Tudo se arranca do seio,
- Amor, desejo, esperança…
Só não se arranca a lembrança
De quando se foi feliz.
Não me culpeis a mim de amar-vos tanto,
mas a vós mesma e à vossa formosura
Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
mesmo às que são mais puras e mais belas,
um detalhe sutil, um quase nada
Um rosto de anjo, límpido, radiante…
Mas, ai! sob êsse angélico semblante
Mora e se esconde uma alma de mulher